segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Paisagens Internas



Dos conceitos distorcidos eu sou o filho,
dos antagonistas vencidos eu sou o pai.
Sou a seita dos órgãos transplantados,
levedo dos pensamentos inacabados.

Sou o tempo do teu próprio tempo,
Senhor do teu esquecimento!
Sou a sombra que invade,
sob a luz que se expande...

Fui concebido pela boca do covarde
e abortado pela glória do valente.
Das estrelas sou a constelação,
dos inertes sou a consternação...

Meu nome são todos os nomes,
sou a cegueira nos olhos dos homens.
Tempestade que precede a calma,
sou o solstício que anoitece a alma.

E muitos me têm por presságio...
Navegantes à deriva em seu próprio naufrágio.
Sou a indefinição da teoria,
Plano de fundo da sabedoria.

Ao fim, sou o tudo e o nada!
Como uma paisagem desbotada...
Fecho os olhos enquanto lamento,
essas tantas palavras jogadas ao vento.

Antônio Piaia

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Espelhos


Espelhos


Tão vaga promessa fiada
ao desconforto do descaso.
Não dizia nada a tua boca velada
no estreito silêncio do simplório sufoco.

Tua voz além da minha voz,
falaria ainda mais sobre nada ter a dizer...
Tortuosa sina de meus pensamentos errantes,
amarga a minha vida no momento inconstante.

Ao passo que sigo repito e repito...
São dias de sono, cansaço e ausência.
Um reflexo distorcido ao espelho,
foge de mim ao ver o desespero.

Olhos tão profundos que miram sabe-se lá o que...
No fundo, no fundo brilham meus olhos
mas não se pode ver...
E por que brilham ainda esses olhos profundos?

Sabe-se lá o porque ...

Antônio Piaia


sábado, 30 de junho de 2012

A Sombra dos Lençóis



Entre a carne e a alma existe um espaço,
um infinito de possibilidade por onde perdem-se
nossos desejos.

Entre a carne e alma existe uma força,
um magnetismo que me remove do mundo e me joga
nos teus braços.

Entre a carne e a alma existe a ausência,
um frio além dos dias frios que segue congelando
nossos corações.

Entre a carne e a alma existe o orgulho,
arrogância essencialmente nossa, um fim por onde
esvaem-se os meios.

Entre a carne e a alma existe o tempo suplicante:
"confia em mim hoje pois o amanhã
 a vocês pertence..."

Entre a carne e alma existimos.
Nada mais importa; e o resto...
É a sombra dos lençóis.



Por: Antônio Piaia

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Coisas Que Não São


As coisas...Sobretudo as coisas que perdi,
coisas que não são, ainda que em mim...
Não passam de coisas que nunca serão!

Pois veja só! Mais um belo sentimento...
Que no desfarce de coisa, não me diz nada,
sobretudo a coisa ainda causa...

Dano imediato, subterfúgio inapropriado;
pois coisas, não mais do que coisas são!
Pois coisas, são coisas que não são...

Antônio Piaia

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Kings of Convenience - Misread




O importante é ter sossego, o importante é ter vontade... A vontade as vezes abandona a gente, mas a sacada é nunca, nunca abandonar ela!

Ter paciência e perseverança, ouvir calmamente, transmitir um pouco da paz que nos resta, pois se de grão em grão a galinha enche o papo; de paz em paz, mudamos o mundo!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Anfiteatro Bucólico


Senhoras e Senhores, Rapazes e Raparigas que aqui se fazem presentes!
É com grande enfaro, que lhes apresento a mais inútil das histórias já contadas...
Ofereço aos pagantes, o intento de ainda tornarem-se ausentes,
aos quase dúzia que restarem, que se acomodem nas cadeiras empoeiradas...

Lamento, pois o nosso fausto protagonista encontra-se em recesso,
deixo-vos sobre o moribundo colóquio de nosso empedernido coadjuvante...
Não vi ainda, alheio ao purgatório, alma humana em tamanho retrocesso,
Vive de seu pensamento antagônico, incapaz de suscitar Les Tenebries, Avant!

Exéquias! Ó exéquias, para este finado coadjuvante...
Bucólico como a paisagem de um inverno campestre,
mais lhe cabe a mortalha do que este colar de diamante! 

Receio que para essa tristeza mundana, não exista instrumento que meça;
peço-vos desculpas, pelos enfados do teatro moderno,
pois o coadjuvante tão declamado, é este que vos apresenta esta peça...

Antônio Piaia

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Derradeiro Adeus


Já vinha a luz do primeiro sol...
Enquanto desabotoava a fina camisa de seda sobre meu peito,
fez de meu achego morada boa, deixou vagar um céu em mim.
Mal sabia o quanto me rasgava a carne já trêmula,
mal sabia o quanto me doía o toque iluminado do primeiro dia...

É mais pelo calafrio que vou embora...
O desapego seguinte maltrata menos que esse molhado bom,
maltrata menos que os estalos desse seu caminhar,
maltrata, como maltrata...

Hoje vou-me embora, pois pra mim não há retorno,
deixo um beijo chorado sobre o seu sono modesto,
deixo uma rosa desfolhada e um verso em papel de pão...

[Foi uma manhã de sol que passou pela canção da gente,
levou-te embora e fez de mim um pobre indigente...]

Antônio Piaia

sábado, 16 de outubro de 2010

Elegias Para Uma Criança Morta

Ao fim,
quando vem a morte acariciar o descontentamento,
num soluço materno se enraíza o pranto já sem lágrimas,
sem qualquer albumina coagulável por esquecimento...

Rogo, mais é pela mãe que a carrega nos braços,
pesados braços, caídos braços, já sem abraços...

Permitiu-se o sol, sob custódia lúgubre, anuviar-se...
Pois a ânsia divina veio em forma de garoa,
chorar por esta criança morta.

Há de amadurecer, esta criança morta,
no fruto de uma figueira...
Há de derramar no céu, esta criança morta,
no vôo da Cotovia que lhe roubar o figo...

Rogo, mais é pela mãe que a carrega nos braços,
pesados braços, caídos braços, já sem abraços...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Angst



Interessante como o medo ocasionalmente ocupa o espaço da possibilidade, interessante como a imaginação ao mesmo tempo que permite, prende... No mínimo dos mínimos, interessante.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Soneto De Um Carnaval Perdido




Ainda floresce em mim a geratriz de uma noite carnavalida,
junto dela, o sentido de um valor que se perderá no tempo...
É certa a intermitência regente que aguça a paixão já vivida,
todavia, é mais certa a inquietude acerca do inesperado sentimento.

Pois sim, se o encontro da carne com a alma precede a despedida,
pífio e com o melodrama que me resta, inclino-me ao não-beijo que pedi.
Já que sou desses de preservar os sabores para o momento da partida,
faço da sedução o dom maior que se desmancha no corpo que perdi...

Por que vens a mim com ares de melancolia e falta?
É pra fazer-me recear a promessa de um samba que não foi?
É pra recordar-me da distância, enquanto a noite segue alta?

Talvez eu busque respostas nas cartas de tarot...
Pois nesse singular carnaval de meu coração,
eu não sei se sou Harlequim ou se sou Pierrot!


Antônio Piaia