segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Derradeiro Adeus


Já vinha a luz do primeiro sol...
Enquanto desabotoava a fina camisa de seda sobre meu peito,
fez de meu achego morada boa, deixou vagar um céu em mim.
Mal sabia o quanto me rasgava a carne já trêmula,
mal sabia o quanto me doía o toque iluminado do primeiro dia...

É mais pelo calafrio que vou embora...
O desapego seguinte maltrata menos que esse molhado bom,
maltrata menos que os estalos desse seu caminhar,
maltrata, como maltrata...

Hoje vou-me embora, pois pra mim não há retorno,
deixo um beijo chorado sobre o seu sono modesto,
deixo uma rosa desfolhada e um verso em papel de pão...

[Foi uma manhã de sol que passou pela canção da gente,
levou-te embora e fez de mim um pobre indigente...]

Antônio Piaia

sábado, 16 de outubro de 2010

Elegias Para Uma Criança Morta

Ao fim,
quando vem a morte acariciar o descontentamento,
num soluço materno se enraíza o pranto já sem lágrimas,
sem qualquer albumina coagulável por esquecimento...

Rogo, mais é pela mãe que a carrega nos braços,
pesados braços, caídos braços, já sem abraços...

Permitiu-se o sol, sob custódia lúgubre, anuviar-se...
Pois a ânsia divina veio em forma de garoa,
chorar por esta criança morta.

Há de amadurecer, esta criança morta,
no fruto de uma figueira...
Há de derramar no céu, esta criança morta,
no vôo da Cotovia que lhe roubar o figo...

Rogo, mais é pela mãe que a carrega nos braços,
pesados braços, caídos braços, já sem abraços...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Angst



Interessante como o medo ocasionalmente ocupa o espaço da possibilidade, interessante como a imaginação ao mesmo tempo que permite, prende... No mínimo dos mínimos, interessante.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Soneto De Um Carnaval Perdido




Ainda floresce em mim a geratriz de uma noite carnavalida,
junto dela, o sentido de um valor que se perderá no tempo...
É certa a intermitência regente que aguça a paixão já vivida,
todavia, é mais certa a inquietude acerca do inesperado sentimento.

Pois sim, se o encontro da carne com a alma precede a despedida,
pífio e com o melodrama que me resta, inclino-me ao não-beijo que pedi.
Já que sou desses de preservar os sabores para o momento da partida,
faço da sedução o dom maior que se desmancha no corpo que perdi...

Por que vens a mim com ares de melancolia e falta?
É pra fazer-me recear a promessa de um samba que não foi?
É pra recordar-me da distância, enquanto a noite segue alta?

Talvez eu busque respostas nas cartas de tarot...
Pois nesse singular carnaval de meu coração,
eu não sei se sou Harlequim ou se sou Pierrot!


Antônio Piaia

Piaia, O Retorno!


Então Caro Leitor, depois de certo tempo afastado, retomo as atividades... Existe um período onde toda a criatividade finda, onde a palavra se ausenta, mas ainda que assim pareça, nem tudo é perdição! Vem a inspiração quando menos se espera, vem como um copo cheio matar a sede do exaurido poeta!

Ela, a inspiração, encontra-se nas coisas mais casuais, nas coisas mais banais, não coisas que para serem já basta a pretensão do vir a ser.

Sejam bem-vindos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Retrato Ouvido.





Do tanto que ouço acabei por perder a vontade de falar,
Um gesto aqui, outro ali e quando muito um aceno de mão...
Do tanto que ouvi e do tanto que já deixei de contar
Fez-se meu olhar de neblina, dois faróis que miram o chão.

Do tanto que me pondero sempre trago minha mão junto à boca;
A plena concha, por onde se esvaem os verbos que não conjugarei,
Do tanto que perdi, hoje sei que essa é uma concha plenamente oca,
E esse silêncio é um escudo, evita que eu acabe por falar sobre o que não sei...

Do tanto que observo me expresso mais pelos olhos do que pela fala,
Meu grito é o estralo dos ossos, um cacoete extremamente relaxante...
Do tanto que escrevo, minhas mãos falam o que minha boca sempre cala
E silenciosamente encontro conforto na visão de um horizonte distante.

Do tanto que evito, permito-me sumariamente ao dom do escapismo,
E aos finais de minhas fugas, durante o banho tomo a posição de feto.
Para aqueles que olham de longe, eu sei, pode até parecer autismo...
Mas esse frio que suplica um aconchego faz de mim um verso único e reto.

 Do tanto que meço os sentimentos, fiz de minha alma uma espécie de escada
Por onde sobem aqueles que por merecimento recebem minhas poucas ressalvas...
Do tanto que sinto, assim tão à flor da pele, fiz de meu peito uma espécie de sacada
Por onde me vejo navegando solitariamente no mar efêmero de minhas poucas palavras. 


Antônio Piaia

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Quoi Ça Sert L'amour - Pra Que Serve o Amor



Música de Edith Piaf, sob uma animação que retrata os encontros e desencontros da vida... Uma visão humorística a cerca de sentimentos que todos conhecem muito bem.

A Maré



Vem de encontro às pedras, rebentar-se contra o cais de meu peito...
Sei que é por vaidade que me deixa a deriva, bem sei os teus poréns reais,
E quando retorna ao mar, displicentemente, ignora o mal que tem me feito,
Deixando pra trás nada mais que a amarga ferrugem dos sais e minerais...

A maré é tão assim... De fazer mal a quem só quer lhe dar prazer,
Amar é tão assim... De trazer o silêncio a quem não sabe o que dizer...

Me faz anzol Nossa Senhora! Pra que eu pesque ao invés de ser pescado;
E quando vier a maré que me deixe mais que a ressaca de um amor perdido,
Me faz barco Nossa Senhora! Pra que eu navegue longe desse mar de pecado;
E quando vier a maré minha santa, enxuga as lágrimas desse peito partido.

A maré é tão assim... De derramar o pranto no peito do pescador,
Amar é tão assim... De fazer até o mais descrente rezar com ardor...

Peço tanto a Iemanjá, patrocínio qualquer ou quem sabe intervenção divina,
Pois na maré, tudo parece tão só... E que dó me dá saber que aos poucos ela se esvai...
Que se afoga no sal à beira da praia, que se afoga em um sal que não se refina,
Imploro remendo na rede da minha alma, pois a maré, assim como vem, vai...

A maré é tão assim... Sobre ir e vir.

Antônio Piaia 

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Beirut - Elephant Gun


Pra embalar a sua visita, amigo leitor...

Elephant Gun
(Trecho da letra)

If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight

Se eu fosse jovem, eu fugiria desta cidade
Enterraria meus sonhos debaixo da terra
Assim como eu, nós bebemos até morrer, nós bebemos essa noite...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Álvares, Com Carinho.



Certa manhã acordei de sonhos inquietos,
E o despertar dessa inquietude arremessou-me noutra ainda maior;
Pois o homem que adormece, difere longitudinalmente do homem que desperta...

Vigorou em mim a epifania que me colocava em inconformidade tão grande,
Era um misto de azedo com um não sei o que, um amargo que se bem sei já foi doce...
Caia das minhas costas em direção ao solo a couraça caractereológica que me prendia;
Não me serve mais Álvares de Azevedo.

Ainda que te atirem serpentinas póstumas sobre o embargo de que foi poeta e amou na vida,
Não me serve mais Álvares de Azevedo.
As serpentinas deste teu fúnebre carnaval são negras, exasperam luto pelos cantos...

Não entenda que lhe odeio, por contrário... Em ti vi o reflexo que sempre vigorou em mim,
Se hoje me sei, foi porque busquei no espelho imagem semelhante a que via em ti...
Se hoje sei do anseio que causa a fixação na imagem virgem e imaculada da primeira noite,
Foi porque vislumbrei com água nos olhos, a virgem na periferia dos teus sonhos.

Mas esta manhã acordei de sonhos inquietos. Não me serve mais Álvares de Azevedo!
Justo eu, que outrora apud teus ensinamentos, vim de encontro ao desprendimento;
O que sabes tu sobre olhos castos, o que sabes tu sobre o jardim que é a pureza;
Ao que me consta, o nobre poeta desregrava-se ainda jovem em orgias de pleno gozo carnal...

Não me serve mais Álvares de Azevedo.
Pois dei de mão em imaculada virgem e a possui ali mesmo, no chão...
O mesmo chão onde agora repousam teus ossos, o mesmo chão pra onde um dia irão os meus...

Não desmereço a musa dos teus sonhos caro Álvares, mas difere em muito da minha.
A tua, criação de um coração radiante admito; mas a minha foi esculpida por mãos divinas...
O corpo cândido que tocara somente em teus devaneios noturnos, toquei em vida.
Não me serve mais Álvares de Azevedo.

O mal do teu século, ainda que trajado de certa elegância, não me pertence!
Despeço-me da casca de polidez dos romancistas da tua época, pois eu...
Eu quero viver, quero sentir mais uma vez o gosto bom que tem a boca casta,
E quando tiver de morrer, já que é imperioso, que seja assistindo o sorriso que cativei ao longo da vida, que seja dizendo ao meu filho:
- Cuida de tua mãe durante minha morte, o tanto que cuidei em vida.

 Minha lápide eu sei, não será tão formosa quanto é a tua e não há de ter o dito:
“Foi poeta e amou na vida”, mas ao regar as flores póstumas dedicadas a mim, com o pranto cadente nos olhos ainda castos, minha musa de carne e osso saberá sim que amei na vida!
É por isso Álvares de Azevedo, que não me serve mais...

A Álvares de Azevedo, com carinho. Por: Antônio Piaia