quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Álvares, Com Carinho.



Certa manhã acordei de sonhos inquietos,
E o despertar dessa inquietude arremessou-me noutra ainda maior;
Pois o homem que adormece, difere longitudinalmente do homem que desperta...

Vigorou em mim a epifania que me colocava em inconformidade tão grande,
Era um misto de azedo com um não sei o que, um amargo que se bem sei já foi doce...
Caia das minhas costas em direção ao solo a couraça caractereológica que me prendia;
Não me serve mais Álvares de Azevedo.

Ainda que te atirem serpentinas póstumas sobre o embargo de que foi poeta e amou na vida,
Não me serve mais Álvares de Azevedo.
As serpentinas deste teu fúnebre carnaval são negras, exasperam luto pelos cantos...

Não entenda que lhe odeio, por contrário... Em ti vi o reflexo que sempre vigorou em mim,
Se hoje me sei, foi porque busquei no espelho imagem semelhante a que via em ti...
Se hoje sei do anseio que causa a fixação na imagem virgem e imaculada da primeira noite,
Foi porque vislumbrei com água nos olhos, a virgem na periferia dos teus sonhos.

Mas esta manhã acordei de sonhos inquietos. Não me serve mais Álvares de Azevedo!
Justo eu, que outrora apud teus ensinamentos, vim de encontro ao desprendimento;
O que sabes tu sobre olhos castos, o que sabes tu sobre o jardim que é a pureza;
Ao que me consta, o nobre poeta desregrava-se ainda jovem em orgias de pleno gozo carnal...

Não me serve mais Álvares de Azevedo.
Pois dei de mão em imaculada virgem e a possui ali mesmo, no chão...
O mesmo chão onde agora repousam teus ossos, o mesmo chão pra onde um dia irão os meus...

Não desmereço a musa dos teus sonhos caro Álvares, mas difere em muito da minha.
A tua, criação de um coração radiante admito; mas a minha foi esculpida por mãos divinas...
O corpo cândido que tocara somente em teus devaneios noturnos, toquei em vida.
Não me serve mais Álvares de Azevedo.

O mal do teu século, ainda que trajado de certa elegância, não me pertence!
Despeço-me da casca de polidez dos romancistas da tua época, pois eu...
Eu quero viver, quero sentir mais uma vez o gosto bom que tem a boca casta,
E quando tiver de morrer, já que é imperioso, que seja assistindo o sorriso que cativei ao longo da vida, que seja dizendo ao meu filho:
- Cuida de tua mãe durante minha morte, o tanto que cuidei em vida.

 Minha lápide eu sei, não será tão formosa quanto é a tua e não há de ter o dito:
“Foi poeta e amou na vida”, mas ao regar as flores póstumas dedicadas a mim, com o pranto cadente nos olhos ainda castos, minha musa de carne e osso saberá sim que amei na vida!
É por isso Álvares de Azevedo, que não me serve mais...

A Álvares de Azevedo, com carinho. Por: Antônio Piaia

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. MEU DEUS!!!
    PAREM O MUNDO A POESIA À FLOR DA PELE FOI ESCULPIDA AQUI...
    Isso é a libertação meu amigo... Mais-que-perfeita.. essa poesia é futuro... um futuro livre das coisas mundanas...

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  3. Um futuro livre das coisas mundanas... não sei se me faço apto a tanto, mas a tentativa exaspera a vontade!

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  4. Tens aqui um ótimo blog, excelentes textos. Parabéns!

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