quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Piaia, O Retorno!


Então Caro Leitor, depois de certo tempo afastado, retomo as atividades... Existe um período onde toda a criatividade finda, onde a palavra se ausenta, mas ainda que assim pareça, nem tudo é perdição! Vem a inspiração quando menos se espera, vem como um copo cheio matar a sede do exaurido poeta!

Ela, a inspiração, encontra-se nas coisas mais casuais, nas coisas mais banais, não coisas que para serem já basta a pretensão do vir a ser.

Sejam bem-vindos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Retrato Ouvido.





Do tanto que ouço acabei por perder a vontade de falar,
Um gesto aqui, outro ali e quando muito um aceno de mão...
Do tanto que ouvi e do tanto que já deixei de contar
Fez-se meu olhar de neblina, dois faróis que miram o chão.

Do tanto que me pondero sempre trago minha mão junto à boca;
A plena concha, por onde se esvaem os verbos que não conjugarei,
Do tanto que perdi, hoje sei que essa é uma concha plenamente oca,
E esse silêncio é um escudo, evita que eu acabe por falar sobre o que não sei...

Do tanto que observo me expresso mais pelos olhos do que pela fala,
Meu grito é o estralo dos ossos, um cacoete extremamente relaxante...
Do tanto que escrevo, minhas mãos falam o que minha boca sempre cala
E silenciosamente encontro conforto na visão de um horizonte distante.

Do tanto que evito, permito-me sumariamente ao dom do escapismo,
E aos finais de minhas fugas, durante o banho tomo a posição de feto.
Para aqueles que olham de longe, eu sei, pode até parecer autismo...
Mas esse frio que suplica um aconchego faz de mim um verso único e reto.

 Do tanto que meço os sentimentos, fiz de minha alma uma espécie de escada
Por onde sobem aqueles que por merecimento recebem minhas poucas ressalvas...
Do tanto que sinto, assim tão à flor da pele, fiz de meu peito uma espécie de sacada
Por onde me vejo navegando solitariamente no mar efêmero de minhas poucas palavras. 


Antônio Piaia

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Quoi Ça Sert L'amour - Pra Que Serve o Amor



Música de Edith Piaf, sob uma animação que retrata os encontros e desencontros da vida... Uma visão humorística a cerca de sentimentos que todos conhecem muito bem.

A Maré



Vem de encontro às pedras, rebentar-se contra o cais de meu peito...
Sei que é por vaidade que me deixa a deriva, bem sei os teus poréns reais,
E quando retorna ao mar, displicentemente, ignora o mal que tem me feito,
Deixando pra trás nada mais que a amarga ferrugem dos sais e minerais...

A maré é tão assim... De fazer mal a quem só quer lhe dar prazer,
Amar é tão assim... De trazer o silêncio a quem não sabe o que dizer...

Me faz anzol Nossa Senhora! Pra que eu pesque ao invés de ser pescado;
E quando vier a maré que me deixe mais que a ressaca de um amor perdido,
Me faz barco Nossa Senhora! Pra que eu navegue longe desse mar de pecado;
E quando vier a maré minha santa, enxuga as lágrimas desse peito partido.

A maré é tão assim... De derramar o pranto no peito do pescador,
Amar é tão assim... De fazer até o mais descrente rezar com ardor...

Peço tanto a Iemanjá, patrocínio qualquer ou quem sabe intervenção divina,
Pois na maré, tudo parece tão só... E que dó me dá saber que aos poucos ela se esvai...
Que se afoga no sal à beira da praia, que se afoga em um sal que não se refina,
Imploro remendo na rede da minha alma, pois a maré, assim como vem, vai...

A maré é tão assim... Sobre ir e vir.

Antônio Piaia 

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Beirut - Elephant Gun


Pra embalar a sua visita, amigo leitor...

Elephant Gun
(Trecho da letra)

If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight

Se eu fosse jovem, eu fugiria desta cidade
Enterraria meus sonhos debaixo da terra
Assim como eu, nós bebemos até morrer, nós bebemos essa noite...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Álvares, Com Carinho.



Certa manhã acordei de sonhos inquietos,
E o despertar dessa inquietude arremessou-me noutra ainda maior;
Pois o homem que adormece, difere longitudinalmente do homem que desperta...

Vigorou em mim a epifania que me colocava em inconformidade tão grande,
Era um misto de azedo com um não sei o que, um amargo que se bem sei já foi doce...
Caia das minhas costas em direção ao solo a couraça caractereológica que me prendia;
Não me serve mais Álvares de Azevedo.

Ainda que te atirem serpentinas póstumas sobre o embargo de que foi poeta e amou na vida,
Não me serve mais Álvares de Azevedo.
As serpentinas deste teu fúnebre carnaval são negras, exasperam luto pelos cantos...

Não entenda que lhe odeio, por contrário... Em ti vi o reflexo que sempre vigorou em mim,
Se hoje me sei, foi porque busquei no espelho imagem semelhante a que via em ti...
Se hoje sei do anseio que causa a fixação na imagem virgem e imaculada da primeira noite,
Foi porque vislumbrei com água nos olhos, a virgem na periferia dos teus sonhos.

Mas esta manhã acordei de sonhos inquietos. Não me serve mais Álvares de Azevedo!
Justo eu, que outrora apud teus ensinamentos, vim de encontro ao desprendimento;
O que sabes tu sobre olhos castos, o que sabes tu sobre o jardim que é a pureza;
Ao que me consta, o nobre poeta desregrava-se ainda jovem em orgias de pleno gozo carnal...

Não me serve mais Álvares de Azevedo.
Pois dei de mão em imaculada virgem e a possui ali mesmo, no chão...
O mesmo chão onde agora repousam teus ossos, o mesmo chão pra onde um dia irão os meus...

Não desmereço a musa dos teus sonhos caro Álvares, mas difere em muito da minha.
A tua, criação de um coração radiante admito; mas a minha foi esculpida por mãos divinas...
O corpo cândido que tocara somente em teus devaneios noturnos, toquei em vida.
Não me serve mais Álvares de Azevedo.

O mal do teu século, ainda que trajado de certa elegância, não me pertence!
Despeço-me da casca de polidez dos romancistas da tua época, pois eu...
Eu quero viver, quero sentir mais uma vez o gosto bom que tem a boca casta,
E quando tiver de morrer, já que é imperioso, que seja assistindo o sorriso que cativei ao longo da vida, que seja dizendo ao meu filho:
- Cuida de tua mãe durante minha morte, o tanto que cuidei em vida.

 Minha lápide eu sei, não será tão formosa quanto é a tua e não há de ter o dito:
“Foi poeta e amou na vida”, mas ao regar as flores póstumas dedicadas a mim, com o pranto cadente nos olhos ainda castos, minha musa de carne e osso saberá sim que amei na vida!
É por isso Álvares de Azevedo, que não me serve mais...

A Álvares de Azevedo, com carinho. Por: Antônio Piaia

Capitu - Olhos de Ressaca


(Trecho da minissérie Capitu, inspirada na obra de Machado de Assis)


Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitou, mas então com as mãos, e disse-lhe,--para dizer alguma cousa,--que era capaz de os pentear, se quisesse.

--Você?

--Eu mesmo.

--Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.

--Se embaraçar, você desembaraça depois.

--Vamos ver.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vincent



Eis o primeiro trabalho em Stop Motion de Tim Burton; Vincent de 1982 conta com a narração do ator Vincent Price... Destaque para o riquíssimo emprego de rimas e para a citação de Edgar Allan Poe ao final do conto, citando O Corvo.

Fragmentos de Vida



Em silêncio me consome,
Pouco a pouco me mata,
E sem deixar vestígios, logo some.
Sem destino, afogo-me no mar que é você.
Vejo em teus olhos todos os vícios.
Aqui fico, reduto as banalidades de minha vida inteira.
Em silêncio desejo que morra...
Pouco a pouco meu pensamento te mata
Suma-te agora, livre-me dos estigmas,
Livre-me dos chagas, das impurezas,
Livre-me da tua sina...
Queimo todas as tuas fotos na esperança de queimar junto essa agonia.
Vejo teu rosto em todas as mulheres, sinto teu cheiro em todos os perfumes.
Mas o que resta agora são apenas cinzas,
Vestígios de um pedaço da  minha vida...

           
                                                                               Antônio Piaia

Na Vigília de Meu Sono



De espera, deixei escapar ao porteiro,
Sentimentos tão belos, puros e sinceros,

Na vigília de meu sono certeiro,
Guardava no peito, da paixão os flagelos.

E sutilmente ao ver-te o torso despido,
Rompia ao acaso um sentimento inesperado.

E por medo, velei o inimigo,
Amigo pertinente de um sonho desesperado.

Por adeus assim como o seria, falta me faria,
Escondi-me então na mais profunda falsa alegria.

Vivi assim, amargamente em nostalgia,
Na esperança de ter-te aos braços mais dia, menos dia...


                                                                       Antônio Piaia