terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Estória do Gato e da Lua



http://www.youtube.com/watch?v=zEzIPsKwTlw



“No princípio era o negro absoluto, a imensidão calma da noite.
Depois ela surgiu e tudo mudou.
Há muito que deixei de a procurar, agora tudo é mais calmo.
Aprendi que o melhor é esperar. Ela virá quando puder... ou quiser.
Sei que um dia virá ter comigo, senão porque passaria horas a fio, noites inteiras a observar-me?
Nada mais importa. Eu espero...

Mas nem sempre fui assim.
Depois de a conhecer a minha vida mudou. Procurei segui-la, por ela atravessei mares, corri oceanos, cheguei mesmo a andar à deriva. Tudo fiz para a encontrar. Quando julguei estar perto... estava ainda bem longe.

Senti-me perdido, sem saber o que fazer. No meio de tanto mar o barco tornava-se cada vez mais apertado, o mundo cada vez mais pequeno para toda aquela paixão!

Foi então que mudei de vida. Arranjei casa e confortavelmente instalado, julguei irrecusável a minha proposta.

Mas, de novo, ela fugiu.

Desesperado, fui então de telhado em telhado atrás dela, escravo daquele desejo, prisioneiro daquela atracção que pouco a pouco me deixava cada vez mais só.

E o tempo passou...
Agora já não corro, espero apenas.
O resto não importa...”


Pedro Serrazina, 1995.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Prólogo do Tempo


Tempo...Tempo...Tempo...
És tu o culpado por eu estar assim,
triste, solitário, amargo, velho.

Se tivesses parado ao menos uma vez,
talvez eu pudesse te acompanhar.
Mas tu, sempre apressado,
não pode esperar...

Mas agradeço-te eternamente,
por me deixar lembranças.
Foi bom ter amigos,
e foi bom ter amado alguém...

Mas tempo, se tu não tivesses tanta pressa...
Levou tudo o que me fazia sorrir,
mas esqueceu de levar contigo minha dor.

Tempo...Tempo...Tempo...
És tu que reges a vida, com triste melodia,
sem parar vai levando tudo.

Leva a beleza das mulheres,
leva a força dos homens,
leva a juventude das crianças...

Tempo...Tempo...Tempo...
Vai agora e segue teu rumo,
e se um dia me encontrar,
perdido pelo caminho...

Não se preocupe em estender a mão,
pois só estou atrás do que me levou embora.
Tempo...Tempo...Tempo...

Antônio Piaia

Cartões Postais


Não me dizem nada.
Meros instrumentos da vaidade humana,
Servem para quê? Inúteis cartões postais.

Nada tão significativo.
Mais um pedaço de papel pra entupir gavetas,
Sem utilidade alguma! Fúteis cartões postais.

Nunca enviarei à ti.
Mesmo que espere afoita durante as manhãs,
Um pensamento vale mais que mil postais.

Malditos cartões postais...
Não me dizem nada.
Absolutamente nada.


Antônio Piaia

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Tão Sem Graça


Aos tristes os carnavais são assim...

Quantos carnavais mais hão de passar,
E eu aqui...
Quantos sonetos mais os poetas vão contar,
E eu aqui...

Levanta Pierrot segue o bloco,
Pois quem é triste fica pra trás...


Antônio Piaia

sábado, 20 de dezembro de 2008

Atria


Se um dia olhares para o céu soturno,
Se ao menos uma vez em toda eternidade,
Contemplares o céu noturno

Lá estarão às estrelas,
Brilhando pelo infinito, que por fim
Trazem teu amor a mim

Quando estiveres totalmente só,
E teus sonhos tiverem acabado
Mesmo que o mundo vire pó

Se olhares além do céu,
Além de onde moram os anjos,
Verás através do véu

E só então, saberás que por todo o sempre,
Estive te olhando e nas noites frias,
Com meu calor estive te amando...


Antônio Piaia

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Corpo

Pedaço de carne, máquina da vida, instrumento de reprodução.
Por que, tanto me atrai o teu?

Abrigo transitório, ninho de vermes, já nasce em decomposição.
Por que, tanto me traio pelo teu?

Antônio Piaia

(Foto Por: Amanda Mendonça)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Estações

Tristes são os dias que me pego solitário,
Devaneios nublados...

Bons eram os dias em que estava a teu lado,
Pensamentos ensolarados...

E agora nem companhia e nem solidão,
Perco-me em devaneios,
Criando uma nova estação...


Antônio Piaia

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Pequenina Rosa

Deita, te cobre com as estrelas,
Dorme e apaga essa lua,
Sonha e amanhã com o sol há de te acordar,
Faço-te do infinito boa cama...

Calma, o sono já vem...
Aceita essa rosa, oferto-te essa ceia...
Come Marte e bebe Netuno.
Embriaga-te no vinho doce que é a via-láctea...

Agora sem fome, sem sede,
Aceita essa rosa, pequenina rosa,
Tímida flor, simplória se comparada ao amor,
Deita, dorme e sonha agora...

Descansa teu corpo, estende mão a tua alma,
Se não se importar vou acender a lua...
Melhor agora, vejo teu rosto, toco teu corpo,
Agora enxergo... Era tu a pequenina rosa...


Antônio Piaia

sábado, 6 de dezembro de 2008

Poesia Cotidiana


Estava eu a caminhar só, estava eu a fazer parte deste relógio Cartesiano...
Tinha os ombros encolhidos e o nariz como uma tromba a bater no chão,
Como pode perceber, eu estava triste!
Então em um breve lapso introspectivo, prostei-me a meditar...
Imerso em cálculos aritméticos e citando filósofos cheguei à conclusão alguma.

Sendo assim...
Desencolhi os ombros, tomei a postura de bípede que me cabe,
Então em um breve lapso introspectivo, prostei-me a meditar...
Sorri e chorei no mesmo segundo, enquanto caminhava pelo mundo,
Nossa! Quanta alegria vi na boca de uma senhora sem dentes!
Eu com todos, ainda me lamento, pobre homem, pobre homem...

Sendo assim...
Elaborei a seguinte ideologia: “alegria, alegria... mesmo que haja nostalgia”.
Segui perambulando, segui matutando... Cansei-me e resolvi sentar,
Traga-me um café! Disse ao moço do botequim. Forte e com duas colheres de açúcar,
É comprovado por este que vos fala que mais do que duas colheres estragam seu café.
Disse ao taverneiro, “alegria, alegria, mesmo que haja nostalgia” ele sorriu!

Sendo assim...
Levantei-me e decidi, está comprovado que minha ideologia é mais que eficiente!
Sai pelas ruas gritando “alegria, alegria, mesmo que haja nostalgia”...
Estendi mão à formosa senhorita que estava cabisbaixa em seu canto e lhe disse:
Alegria, alegria, mesmo que haja nostalgia... Menina por que choras?
Porque a nostalgia é maior que a alegria... refleti sobre a nostalgia da menina.

Sendo assim...
Refiz minha via sacra sobre alegria e nostalgia no meu segundo mais veloz!
Mas e quando a nostalgia for maior que a alegria?! Fracassou minha teoria?
Então com o pingo de cera quente de minha última vela incandescente veio à luz...
Traga-me uma xícara de nostalgia e duas colheres de alegria.

Sendo assim...
Solucionei a fórmula exata dos sentimentos, está por ai nos botequins da vida.
Chora menina... Chora sim e com vontade! Mas sorria duas vezes logo em seguida...
Pode parecer ironia, mas a minha alegria compensa a sua nostalgia, vês?!
Por isso repito duas vezes, alegria, alegria e só uma a nostalgia.


Antônio Piaia

Os Ventos de Lá


Aquele vento...
Aqui ele não sopra como lá,
E essa saudade, essa nostalgia.
Esse sentimento de ter deixado algo grandioso pra traz...

Recordo-me de nossas andanças desafortunadas por aquele bosque...
Aquele bosque...
Lembro-me também do beijo tímido que te ofertei,
E pensar que aquele era o nosso começo...

O tempo passou, mudamos a cada segundo,
Como diria meu avô a única certeza em nossas vidas é a mudança,
Busco em ti a menina de ontem, mas pra onde ela foi?
Tudo bem, eu me perdi também...

E agora já se vão meses, logo se irão os anos e eu continuarei aqui,
Vivendo desse passado, sinto como se devesse esquecer tudo,
Mas no fim das contas era você que estava ao meu lado...
Que direito teria eu, pobre homem de te esquecer ou ao menos tentar...

Se esse é o preço do tal amor, pouco me importo,
Amo-te aqui sozinho, amo-te aqui em silêncio para que ninguém mais saiba.
Guardo-te em meu coração e não se preocupes, pois teu lugar a muito já estava guardado...
Aquele vento...




Antônio Piaia