quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Kings of Convenience - Misread




O importante é ter sossego, o importante é ter vontade... A vontade as vezes abandona a gente, mas a sacada é nunca, nunca abandonar ela!

Ter paciência e perseverança, ouvir calmamente, transmitir um pouco da paz que nos resta, pois se de grão em grão a galinha enche o papo; de paz em paz, mudamos o mundo!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Anfiteatro Bucólico


Senhoras e Senhores, Rapazes e Raparigas que aqui se fazem presentes!
É com grande enfaro, que lhes apresento a mais inútil das histórias já contadas...
Ofereço aos pagantes, o intento de ainda tornarem-se ausentes,
aos quase dúzia que restarem, que se acomodem nas cadeiras empoeiradas...

Lamento, pois o nosso fausto protagonista encontra-se em recesso,
deixo-vos sobre o moribundo colóquio de nosso empedernido coadjuvante...
Não vi ainda, alheio ao purgatório, alma humana em tamanho retrocesso,
Vive de seu pensamento antagônico, incapaz de suscitar Les Tenebries, Avant!

Exéquias! Ó exéquias, para este finado coadjuvante...
Bucólico como a paisagem de um inverno campestre,
mais lhe cabe a mortalha do que este colar de diamante! 

Receio que para essa tristeza mundana, não exista instrumento que meça;
peço-vos desculpas, pelos enfados do teatro moderno,
pois o coadjuvante tão declamado, é este que vos apresenta esta peça...

Antônio Piaia

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Derradeiro Adeus


Já vinha a luz do primeiro sol...
Enquanto desabotoava a fina camisa de seda sobre meu peito,
fez de meu achego morada boa, deixou vagar um céu em mim.
Mal sabia o quanto me rasgava a carne já trêmula,
mal sabia o quanto me doía o toque iluminado do primeiro dia...

É mais pelo calafrio que vou embora...
O desapego seguinte maltrata menos que esse molhado bom,
maltrata menos que os estalos desse seu caminhar,
maltrata, como maltrata...

Hoje vou-me embora, pois pra mim não há retorno,
deixo um beijo chorado sobre o seu sono modesto,
deixo uma rosa desfolhada e um verso em papel de pão...

[Foi uma manhã de sol que passou pela canção da gente,
levou-te embora e fez de mim um pobre indigente...]

Antônio Piaia

sábado, 16 de outubro de 2010

Elegias Para Uma Criança Morta

Ao fim,
quando vem a morte acariciar o descontentamento,
num soluço materno se enraíza o pranto já sem lágrimas,
sem qualquer albumina coagulável por esquecimento...

Rogo, mais é pela mãe que a carrega nos braços,
pesados braços, caídos braços, já sem abraços...

Permitiu-se o sol, sob custódia lúgubre, anuviar-se...
Pois a ânsia divina veio em forma de garoa,
chorar por esta criança morta.

Há de amadurecer, esta criança morta,
no fruto de uma figueira...
Há de derramar no céu, esta criança morta,
no vôo da Cotovia que lhe roubar o figo...

Rogo, mais é pela mãe que a carrega nos braços,
pesados braços, caídos braços, já sem abraços...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Angst



Interessante como o medo ocasionalmente ocupa o espaço da possibilidade, interessante como a imaginação ao mesmo tempo que permite, prende... No mínimo dos mínimos, interessante.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Soneto De Um Carnaval Perdido




Ainda floresce em mim a geratriz de uma noite carnavalida,
junto dela, o sentido de um valor que se perderá no tempo...
É certa a intermitência regente que aguça a paixão já vivida,
todavia, é mais certa a inquietude acerca do inesperado sentimento.

Pois sim, se o encontro da carne com a alma precede a despedida,
pífio e com o melodrama que me resta, inclino-me ao não-beijo que pedi.
Já que sou desses de preservar os sabores para o momento da partida,
faço da sedução o dom maior que se desmancha no corpo que perdi...

Por que vens a mim com ares de melancolia e falta?
É pra fazer-me recear a promessa de um samba que não foi?
É pra recordar-me da distância, enquanto a noite segue alta?

Talvez eu busque respostas nas cartas de tarot...
Pois nesse singular carnaval de meu coração,
eu não sei se sou Harlequim ou se sou Pierrot!


Antônio Piaia

Piaia, O Retorno!


Então Caro Leitor, depois de certo tempo afastado, retomo as atividades... Existe um período onde toda a criatividade finda, onde a palavra se ausenta, mas ainda que assim pareça, nem tudo é perdição! Vem a inspiração quando menos se espera, vem como um copo cheio matar a sede do exaurido poeta!

Ela, a inspiração, encontra-se nas coisas mais casuais, nas coisas mais banais, não coisas que para serem já basta a pretensão do vir a ser.

Sejam bem-vindos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Retrato Ouvido.





Do tanto que ouço acabei por perder a vontade de falar,
Um gesto aqui, outro ali e quando muito um aceno de mão...
Do tanto que ouvi e do tanto que já deixei de contar
Fez-se meu olhar de neblina, dois faróis que miram o chão.

Do tanto que me pondero sempre trago minha mão junto à boca;
A plena concha, por onde se esvaem os verbos que não conjugarei,
Do tanto que perdi, hoje sei que essa é uma concha plenamente oca,
E esse silêncio é um escudo, evita que eu acabe por falar sobre o que não sei...

Do tanto que observo me expresso mais pelos olhos do que pela fala,
Meu grito é o estralo dos ossos, um cacoete extremamente relaxante...
Do tanto que escrevo, minhas mãos falam o que minha boca sempre cala
E silenciosamente encontro conforto na visão de um horizonte distante.

Do tanto que evito, permito-me sumariamente ao dom do escapismo,
E aos finais de minhas fugas, durante o banho tomo a posição de feto.
Para aqueles que olham de longe, eu sei, pode até parecer autismo...
Mas esse frio que suplica um aconchego faz de mim um verso único e reto.

 Do tanto que meço os sentimentos, fiz de minha alma uma espécie de escada
Por onde sobem aqueles que por merecimento recebem minhas poucas ressalvas...
Do tanto que sinto, assim tão à flor da pele, fiz de meu peito uma espécie de sacada
Por onde me vejo navegando solitariamente no mar efêmero de minhas poucas palavras. 


Antônio Piaia

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Quoi Ça Sert L'amour - Pra Que Serve o Amor



Música de Edith Piaf, sob uma animação que retrata os encontros e desencontros da vida... Uma visão humorística a cerca de sentimentos que todos conhecem muito bem.

A Maré



Vem de encontro às pedras, rebentar-se contra o cais de meu peito...
Sei que é por vaidade que me deixa a deriva, bem sei os teus poréns reais,
E quando retorna ao mar, displicentemente, ignora o mal que tem me feito,
Deixando pra trás nada mais que a amarga ferrugem dos sais e minerais...

A maré é tão assim... De fazer mal a quem só quer lhe dar prazer,
Amar é tão assim... De trazer o silêncio a quem não sabe o que dizer...

Me faz anzol Nossa Senhora! Pra que eu pesque ao invés de ser pescado;
E quando vier a maré que me deixe mais que a ressaca de um amor perdido,
Me faz barco Nossa Senhora! Pra que eu navegue longe desse mar de pecado;
E quando vier a maré minha santa, enxuga as lágrimas desse peito partido.

A maré é tão assim... De derramar o pranto no peito do pescador,
Amar é tão assim... De fazer até o mais descrente rezar com ardor...

Peço tanto a Iemanjá, patrocínio qualquer ou quem sabe intervenção divina,
Pois na maré, tudo parece tão só... E que dó me dá saber que aos poucos ela se esvai...
Que se afoga no sal à beira da praia, que se afoga em um sal que não se refina,
Imploro remendo na rede da minha alma, pois a maré, assim como vem, vai...

A maré é tão assim... Sobre ir e vir.

Antônio Piaia